I am the Earlybird

Carbon molecules with opposable thumb prone to the most distraught fantasies.

Symmetry

Adriano Cintra - Superafim 2014 feat. Patrícia Coelho

Concentre-se no meio.

Sometimes I forget how good this album is.

Guarda o teu olhar de ave presa
Na toalha de uma mesa
Sem mirar a luz do sol
Não há calor na luz do sol
O fim da festa é uma certeza
Fausto Nilo/Rodger Rogério

GoPro: Whale Fantasia

Não buscaria conforto
Nem juntaria dinheiro
Um amor em cada porto
Ah, se eu fosse marinheiro
Não pensaria em dinheiro
Um amor em cada porto
Ah! se eu fosse marinheiro…
Antônio Cícero/Paulo Machado

Culpamo-nos por tudo, o tempo inteiro. No fracasso e também no sucesso. Na adversidade e no triunfo a culpa está sempre lá, projetando sua longa sombra sobre nós.
Mas se o homem é o único animal a sentir verdadeiro pesar, irremediável culpa, o que nos destrói por dentro é também um traço de nossa identidade comum: demasiadamente humanos, irremediavelmente culpados.

por Renato Essenfelder

A culpa é toda minha.

O chá esfria lentamente. [Ela disse gostar de chá, e preparei um com toda a cerimônia.] A xícara repousa sobre a mesa. Infusão de cores e aromas num silêncio sem borbulhas, um silêncio sem misturas, um silêncio de folhas molhadas, névoa clara e gotículas condensadas.

Eis a única conclusão possível. Ainda que o tempo de minha culpa seja o mesmo do chá quente, e que se sucedam as culpas em espirais sem fim, as manchas úmidas sobre a mesa persistem.

Eu, poderia, afinal, ter feito melhor. Poderia ter me aplicado mais. Não quis dizer aquilo. Passe o açúcar. Não quis fazer isso. Adoçante, melhor. Eu poderia ter feito mais e melhor. Eu me culpo, puno, penalizo. Eu me mato. Torradas? Geléia?

Tudo faz com que eu me sinta culpado. Fracassar e, às vezes, vencer.Ter sorte no infortúnio. Ou azar. Perder o timing. Produzir menos do que poderia; mentir, desejar, querer mais do que deveria; abandonar planos, insistir em erros. A carne, o espírito. Passar pouco tempo com quem mais se ama, tempo demais desperdiçado. Ficar. Partir. Estamos sempre em outro lugar.

Mesmo não sentir culpa é motivo bastante para nos culparmos.

Afundo na poltrona e me culpo por estar imóvel enquanto o mundo gira. Os livros não se escrevem sozinhos, os filhos não se criam, a casa não se limpa, o dinheiro não brota. Eu deveria trabalhar mais, limpar melhor a casa, ler mais, escrever melhor, exercitar corpo e mente, estar mais presente na vida de quem importa, sabendo que nada é para sempre.

Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. A culpa sobrevive nos meus pensamentos, dizendo-se constantemente, fazendo-se presente. É preciso me mover. Mais depressa.

Mas não podemos. O ser humano é o único animal a sentir culpa, verdadeiramente. Remorso, pesar. A culpa nos dilacera e reúne. Sob o mesmo sol, os mesmos pecados. Humanos, demasiadamente humanos.

As culpas todas, tanta gastura e flagelação inútil. Mares de sal, lágrimas de Portugal. Fardo insustentável sobre todos nós, que também nos identifica.

A culpa é toda minha, como sua, e eu sou como você.

Adam Magyar - Stainless, Alexanderplatz (excerpt), 2011

Meu coração não se cansa
De ter esperança
De um dia ser tudo o quer quer
Meu coração de criança
Não é só lembrança
De um vulto feliz de mulher
Que passou por meus sonhos
Sem dizer adeus
E fez dos olhos meus
Um chorar mais sem fim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui
Legião Urbana